Mais que saudade

sábado, 30 de julho de 2011

Tento dormir e não consigo por sua causa, e você nem sabe disso. Viro de um lado para o outro, tentando mandar em meus pensamentos, inutilmente. E inevitavelmente, me transporto para o seu lado. Iludida, torço para que ao menos por um segundo, você pense em mim antes de adormecer. Fico inquieta e angustiada, e se me vissem, me chamariam de louca, por insistir em falar sozinha. Mas de alguma forma, penso que você pode estar me ouvindo. E é uma maneira de liberar um pouco do que eu sinto. Eu fecho os olhos e me vejo acariciando seu rosto, e quando os abro, meu coração já está disparado. Levanto-me e vou para a sala, abro a janela e olho o céu, e naquele exato segundo daria tudo para estar com você. A distância não foi capaz de acabar com o que eu sinto por você. Sem você, sou só metade de mim. Uma chance, e faria tudo diferente. Eu estava errada quando achei que podia mandar no coração, e a situação saiu do controle. Sem minha permissão, você permanece vivo em mim. E no silêncio da madrugada, meu coração grita seu nome. De qualquer forma, eu tenho esperança de um dia poder dizer para você, o que eu sempre soube e não quis admitir: eu amo você, demais.


Lívia Souza

Um erro, várias consequências

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Não parecia possível. Uma tragédia. Totalmente surreal. Seria verdade? O teste deu positivo, pela terceira vez. Estava com mal-estar já havia umas três semanas. O desespero veio à tona. Ela sempre se comportou tão bem, cheia de princípios, e garantia a sí própria que não havia possibilidade de ter acontecido nada. Exceto há uns dias atrás que foi numa festa e se embebedou demais com um rapaz. Não se lembra de nada daquela noite, que não teve nenhuma significância nem para ela, e provavelmente muito menos para o homem, cujo ela nem sequer lembra o nome. Daquela noite, só restaram poucos flashes em sua mente, como um filme que não passa. Com muito esforço ela se recordou de alguma coisa. E depois caiu em choro. Ela estava grávida. Grávida e totalmente perdida. Ela havia acabado de se formar em direito, e passado na prova da OAB, pronta para ser uma advogada competente e deslanchar em sua carreira, com grandes possibilidades de obter sucesso profissional. Estava tudo arruinado? Era isso? Sonhos de uma vida destruídos por uma noite? Uma irresponsabilidade estava lhe custando todo um futuro promissor. Um peso que ela não aguentaria carregar sozinha, desamparada. Decepcionaria seus pais eternamente, que estavam tão contentes pela filha ter dado o primeiro passo para o mercado de trabalho. Que estrutura essa criança teria? Qual a explicação de sua vinda ao mundo? Ela se acovardou. Viu que só tinha duas soluções. Se foi mulher de errar, teria de ser mulher para se redimir e assumir seus erros. Ou abortaria.

Ela foi fraca, optou por abortar. E percebendo a gravidade de tal ato, chegou a conclusão que também não merecia viver, por ter sido tão cruel. E era o fim de duas vidas.

Lívia Souza

Quando menos se espera, acontece

sábado, 23 de julho de 2011

Tudo começou de repente. Era uma sexta como outra qualquer, ele se arrumou como o de costume e foi para a balada, sem expectativas. Encontrou dois amigos e foi tomar um drink. E quando distraído olhava para os lados, algo lhe chamou a atenção: uma bela mulher séria no canto da pista, o tipo que muitos não chegariam, pois de longe já parecia difícil. Talvez tenha sido isso que o atraiu. O que lhe parecia indisponível sempre chamou mais atenção. Ele analisou o comportamento dela, e criou coragem para ir até ela, sem medo de sua reação. De fato, ela não era fácil. Foi difícil arrancar-lhe um sorriso, mas quando conseguiu, sabia que havia feito metade do caminho. Ela não queria nada sério, mas abriu-lhe uma exceção por ter chegado de mansinho. Ele já havia aberto seu coração. Coração que bateu rápido, enquanto ela o beijava devagar. Beijo quente que congelava, era carne e alma. Ela reclamou um pouco da música que se passava, e ele reclamava mentalmente que a noite uma hora acabaria. Queria que o tempo parasse a cada toque dela. Ele quis compartilhar o que sentiu, mas iria assustá-la. Se despediu sem falar muito, preferiu se calar. Sentir era o bastante. Naquela noite, ele não dormiu. Tinha a impressão de que poderia se passar décadas, mas ainda sentiria, mesmo que em sonho, seu toque vivo. No dia seguinte, os amigos perguntaram se a festa foi boa, mas ele não soube responder, ele se focou nela. Avisaram a ele que não podia se apaixonar por uma mulher que mal conhecia, mas ele apenas sorriu, já era tarde. Dias depois, descobriu que ela havia conseguido um bom emprego em outro estado. Conheceu tantas outras garotas, tentando substitui-la de seu coração. Mas conseguiu apenas vários beijos vazios e sem alma. Beijos com gosto de saudade. Esqueceria todo o orgulho por uma chance de vê-la voltar.


Lívia Souza

Destino forjadamente mudado

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Gostava demais para ir embora. Era ambiciosa demais para ficar e contentar-se apenas disso. Mais do que atração, era algo que transcendia a química. Mais do que precisar, um dependia do outro. A ganância mudou um belo caminho, partindo-o em dois. E então, dois novos destinos distintos foram traçados. Uma nova escolha, uma grande renúncia. O amor não resistiu ao egocentrismo. Despediu-se sorrindo. Uma semana depois já queria voltar. Sete anos depois e não queria ter ido embora nunca.

Lívia Souza

Pedaços

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A porta do quarto ficou aberta. Ela ficou encolhida na cama, abraçando a si própia. Será possível existir alguém com tanta maldade? Que seja capaz de brincar com sentimentos intensamente íntimos, e depois desprezá-los como se não houvessem menor importância? Ela lhe entregou o que tinha de mais valioso. Não se tratava apenas de um corpo, mas de um coração ingênuo e apaixonado, se tratava de uma alma.

Foi tudo friamente calculado. Ele olhou-a como uma deusa, admirou todo o seu corpo como se estivesse apreciando uma bela e rara arte. Sorriu maliciosamente, seduzindo-a. Se aproximou calmamente, segurando suas mãos. Mãos que começaram a soar frio, quando as mãos dele se deslizaram pelos seus braços, e levemente massagearam seus ombros. Depois exploraram suas costas, abraçando-a como se estivesse cuidando de uma jóia de muito valor. Segurou em sua cintura, abduzindo-a. E então, beijou seu pescoço carinhosamente, fazendo uma breve pausa para saber se ela permitiria que ele seguisse adiante.

Se havia alguma dúvida da parte dela, se foi quando docemente ele acariciou seu rosto e a beijou delicadamente. Enfeitiçada, ela se rendeu. Mas o que tinha tudo para ser um sonho durável, se tornou um horrível pesadelo, onde numa noite sombria, o diabo disfarçado de anjo se apossou de uma alma. E ao amanhecer do sol, se veste e vai embora, deixando apenas destroços de um coração.

Lívia Souza

Um mal para um bem maior

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Ela fez o que menos queria. Se deixou manipular pela maioria a assumir o que tanto almejava. Foi forçada a viver ao lado de um rapaz que mal conhecia. A relação traria lucro para a família e manteria a situação financeira estável. Foi uma 'negociação', como se houvesse um dote a ser pago, mas na verdade o que houve foi um sacrifício: ver seus sonhos serem jogados ao vento e seu coração ser leiloado. Uma menina escondida por detrás de suas inseguranças, uma mulher encorajada pelo destino. Um casamento que mudaria sua vida para sempre, um rapaz tão inexperiente quanto ela. O que fariam da vida deles? O que fariam um do outro? Mas contrariando suas expectativas, o rapaz não podia ter sido mais cavalheiro. Respeitou todos os seus limites, e por ironia do destino, se apaixonou perdidamente por ela. Tão amedrontada, não conseguia olhar nos olhos deles, cujos mal conseguiam piscar por medo de perder algum mínimo detalhe do momento, olhos perdidamente enfeitiçados. O que ela iria fazer? Ela bem que tentou seguir adiante, mas se sentia vazia. Um robô monitorado pelas vontades da família. Uma boneca de pano, que só mexia de acordo com a vontade do dono. Um corpo presente, e uma alma adormecida. Ou morta. Pediu o divórcio, e mais que isso, sua vida de volta, sua liberdade, sua alma. Ele tentou convencê-la de que a faria feliz, apagaria seu passado, e construiria junto dela um futuro admirável. Mas ela apenas disse que ele havia chegado tarde demais em sua vida, e que mesmo ele sendo tão maravilhoso e especial, isso não mudava o fato de que o seu coração já pertencia a outro homem. Ele segurou firme sua mão, olhou intensamente em seus olhos, e disse-lhe: 'Eu te amo por inteiro, te acho linda desde o seu despertar, até o seu rosto enfurecido, mas se o seu sorriso não for meu, eu prefiro apreciá-lo mesmo que distante, do que estar ao seu lado e ser o causador das suas lágrimas.'

Ela o abraçou e foi embora. Ao encostar da porta, uma lágrima rolou pelo rosto dele. Alguém teria que ceder. Ele sacrificou o seu coração, para trazer de volta a vida do coração dela.

Lívia Souza

Nasce do coração, morre pela boca

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Pode fugir de todo o estudo científico, mas é assim que eu sinto.

Os meus olhos enxergam o que não querem ver, ou os meus ouvidos escutam o que não querem ouvir. Meu subconsciente não releva muito bem, e é como se meu coração se partisse ao meio. Logo vem à tona a decepção, dolorosa. Meu coração absorve isso de forma negativa, mandando uma mensagem ao meu cérebro, bastante pessimista. Daí parece que o sangue todo do meu corpo sobe à cabeça, deixando-a vermelha e frágil, enquanto o resto do corpo fica entorpecido, perdendo um pouco a convicção das ações ou gestos. Tento segurar o máximo possível para que ninguém perceba. Na maioria das vezes consigo. Mas o processo continua quando fico a 'sós' comigo mesma, porque na verdade, alí também estão presentes todos os meus sentimentos reprimidos, que por algum motivo, acovardada, não expus. E isso tudo, resulta no que minha alma deixava subentendido, no que minhas verdades escondiam, e ainda assim, escorre tão pura, tão transparente, como se fosse um antídoto. Acompanhada do alívio.
A lágrima concretizou o seu percurso, deslizando pela face, e morrendo pela boca. É o sentimento que foi calado.

Lívia Souza