Uma dose. Uma dose para iniciar a noite. Uma dose para suportar a noite. Uma dose para uma tentativa forjada de acabar com o gosto ácido da solidão. Uma dose na tentativa de absorver também uma amnésia, e deletar recordações que insistem em morar na minha mente. Uma dose para talvez aquecer e preencher o vazio de um coração entorpecido. Uma dose para me deixar inconsciente e não sentir a presença de uma ausência. Uma dose para apagar do meu subconsciente o gosto amargo que ficou na minha boca, desde o nosso último beijo. Uma dose por não saber por onde você tem andado. Uma dose com consciência plena de que ao acordar amanhã, as lembranças vão novamente me consumir, acompanhados da ressaca. Uma dose com o pensamento insano de talvez, não querer acordar amanhã. Nem depois. Uma dose pra fugir de uma dura realidade. Uma dose para todos os sorrisos falsos que foram distribuídos ao longo do dia. Uma dose para as palavras que não foram pronunciadas. Uma dose para todos os sentimentos reprimidos. Uma dose para não te telefonar agora. Uma dose com convicção desvairada de que várias outras doses não trarão o efeito desejado. Uma dose que trás vida matando. Uma dose inutilmente deglutida por saber que nada disso vai durar mais que uma madrugada.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Lívia Souza